quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Céu

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"Por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Dizia em voz alta e repetidas vezes aquele velho senhor que estava parado no meio daquela calçada. Algumas pessoas o olhavam achando estranho, outras paravam e ficavam o assistindo, outras ficavam a zombar do velho, e algumas se afastavam pensando que era um louco. Não sabia ao certo o que se passava na cabeça daquele senhor, mas quem parasse e prestasse atenção na sua pergunta e fizesse o que estava dizendo, certamente perceberia de que a vida que levava não era tão ruim assim. 
"Para muitos, a felicidade só é percebida quando vê que os outros estão em situações piores ou inferiores... ao invés de percebê-la assim... por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Dizia mais uma coisa e no fim repetia sua pergunta. Sempre em voz alta, para que todos que estivessem passando pudessem escutá-lo.
"Algumas pessoas acham que se tornam felizes através da infelicidade dos outros... mas isso jamais será a verdadeira felicidade... ao invés disso... por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Aos poucos mais e mais pessoas se aglomeravam em volta daquele velho senhor, pois as pessoas estavam começando a se identificar com o que ele dizia, e queriam continuar a escutá-lo, pois de alguma forma tais palavras confortavam as pessoas e as faziam perceber que a felicidade estava dentro de cada uma delas.
"Todos querem encontrar a felicidade...e todos a encontram, mas nunca percebem, pois nesse mundo as coisas perdem o valor muito rápido... é uma pena. A única coisa a fazer é perceber que você é feliz..." 
O velho senhor parava e ficava olhando distraído para o céu azul, com lindas nuvens grandes perto das montanhas, fazendo parecer que eram ilhas voadoras. As pessoas ficavam confusas e então olhavam na mesma direção em que ele olhava, era algo que sempre esteve ali, mas que as pessoas jamais perceberam sua presença. Ficavam encantadas com o céu iluminado, sorrisos saíam de suas faces. Assim como o céu, a felicidade sempre esteve por perto... são as pessoas que não a percebem... então...
Porque não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você... é realmente feliz?



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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Simples canção

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Já eram 5 horas da tarde daquele domingo. Era hora de ver o pôr do sol. Mary pegava um casaco, um violão e saía de sua casa. O céu estava claro, o tom era levemente alaranjado, os raios de sol passavam pelas árvores deixando uma bela imagem de paz para se apreciar durante o caminho. Ela andava devagar olhando para as árvores acima, percebia como eram belas e simples, e também como era boa a sensação de liberdade e paz ao sentir o clima fresco, ao escutar pássaros cantando suavemente, ao sentir toda aquela tranqüilidade. 
Queria Mary que aquele momento durasse para sempre. No meio do caminho, a jovem que estava sorrindo para a natureza ao redor, começava a cantar com sua linda voz. A letra era improvisada inspirada no que ela via e sentia, sua voz era suave, gostosa de se ouvir, uma voz que relaxava. 
Eu queria ser uma árvore
Para apreciar o pôr do sol todos os dias
Eu queria ser uma árvore
Para entender a simplicidade da vida
Eu queria ser uma árvore
Para ouvir dos pássaros, a bela melodia
Eu queria ser uma árvore 
Para jamais viver arrependida
(...)


O fim do caminho era um grande campo aberto, era uma plantação de grãos, parecia ser um grande tapete creme. Subia até o ponto mais alto daquele campo, sentava-se no chão, pegava seu violão e ficava a olhar o horizonte, o pôr do sol. Assim tocava a primeira nota da música que estava cantando anteriormente. No improviso e na inspiração daquele domingo agradável, Mary passava o fim de tarde cantando, apreciando as coisas simples que a rodeavam naquele momento, deixava-se levar pelo fluxo, pela energia calma e relaxante que a natureza lhe oferecia. Era apenas mais um domingo, era apenas mais um fim de semana indo embora, mas para Mary, não era apenas isso, era um grande momento feito de pequenas coisas, e que deveriam ser aproveitadas ao máximo, pois nas coisas simples é que se encontram grandes surpresas.



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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Chuva

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"Minhas meias brancas com detalhes de flores azuis esquentavam meus pequenos pés naquele dia de chuva. Eu tirava os sapatos, ia até o quarto de minha mãe, ficava entre a porta e o guarda roupa sentada no chão encostada na parede, apenas observando a chuva da janela. Não era um dia triste... era um dia ensolarado e alegre disfarçado em meio a chuva."

Dias frios, escuros, com chuviscos que ameaçavam uma chuva... eram dias em que desanimavam qualquer um. O sol de toda manhã, em dias assim, mal aparecia, dando uma sensação de fim de tarde, de desânimo, como se você tivesse trabalhado o dia todo, essa era a impressão que dava. Guardas chuva pretos eram a maioria na rua, isso colaborava ainda mais para aquele ânimo de luto, e sem falar nas roupas escuras que cobriam todo o corpo. Dias de chuva para Adrielle eram assim, como se fossem dias de luto.
Já morava fazia 10 anos naquela mesma casa, sozinha. A chuva só fazia Adrielle se sentir ainda mais solitária, pois se lembrava de sua antiga casa, onde tinha a mania de se sentar ao chão no quarto de sua falecida mãe a ficar olhando a chuva passar pela janela. 
Sem muita coisa para fazer naquele domingo chuvoso, Adrielle decidia dar uma arrumada em sua casa já que estava precisando e também queria passar o tempo. Passava horas arrumando cada canto de sua casa, até que foi arrumar o guarda roupa. O guarda roupa era antigo, e era de sua mãe. Com cuidado ela abria as gavetas que nunca usara, e dentro delas haviam algumas coisas esquecidas. Ela tirava um porta-retrato antigo dela com sua mãe e deixava sobre a cama com cuidado, depois uma pequena caixa de jóias que estava vazia mas lhe trazia muitas lembranças, e por fim uma sacola de pano todo rendado fechado por um laço azul. Adrielle ficava curiosa a respeito e retirava o laço com cuidado, assim abrindo a sacola. 
Sobre a cama, ela virava a sacola de cabeça para baixo para que o que estivesse lá dentro caísse sobre a maciez da cama. Assim que aquilo aparecia perante aos olhos de Adrielle, eles simplesmente se encheram de lágrimas.
Eram pequenas meias brancas com detalhes de flores azuis... já não lhe serviam mais, mas ela sentia uma vontade imensa de vesti-las e se sentar ao chão para apreciar a chuva, como nos velhos tempos. 
Adrielle pegava as pequenas meias, se dirigia até perto da porta do quarto que era ao lado do guarda roupa, retirava os sapatos e ali se sentava encostando-se na parede. Via minúsculas gotas de chuva escorrerem pelo vidro da janela de seu quarto, e como se o som, o cheiro e a temperatura fossem a mesma de quando era criança, Adrielle passava a tarde toda ali... com um sorriso no rosto, sentindo a nostalgia de assistir a chuva, que agora não parecia mais ser um dia de luto, e sim um dia ensolarado e alegre disfarçado em meio a chuva.


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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Amor Passageiro

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Ela jamais havia viajado para tão longe de casa como daquela vez. Estava assustada, mas ao mesmo tempo animada, aquela imensa cidade italiana era realmente bela, com cidadãos educados, com uma arquitetura clássica que lembrava uma Europa romântica. Sempre gostou da literatura européia, da arte, música, e também a culinária, estava em Veneza, Itália, uma cidade belíssima sobre as águas. Sobre o barco que a levava para um passeio calmo pelas ruas aquáticas, Annabelle fotografava quase tudo o que via, até mesmo outros turistas, realmente estava animada. Um barco passava do lado, nele havia o remador e um jovem rapaz muito bonito, dava para perceber que era um italiano de sangue, seus olhos eram verdes, seus cabelos eram negros, lisos e curtos, tinha um nariz comprido e definido, um sorriso encantador, parecia um modelo. Era inevitável, até mesmo para homens, não olharem para aquele italiano, e Annabelle, de tão distraída, eufórica, que estava por ser sua primeira vez fazendo uma viagem como essa, se quer percebia o rapaz passar. Este que apreciava sua cidade fazendo um passeio naquele fim de semana, via a bela moça turista de olhos castanhos, cabelos ondulados loiros escuros, tirando fotos e mais fotos sem parar. Sem conseguir segurar, o jovem dava uma risada alta, fazendo Annabelle olhar para o mesmo e perceber que estava rindo dela, e sem ligar para a beleza do rapaz, ela perguntava:

- Que é? Tá rindo do que?

O rapaz se controlava uns instantes apenas para dizer:

- Nada... é que a câmera da senhorita está com a lente tampada...

Annabelle, sem acreditar muito no que o rapaz dizia, olhava para a lente, e nesse momento via que havia tirado dezenas de fotos pretas. Abaixava a cabeça, coçava a testa movendo a cabeça negativamente, como se não acreditasse que havia sido tão... besta... sem mais se lamentar, levantava a cabeça olhando para o italiano e começava a rir de si mesma:

- Eu não acredito nisso! Hahaha! Belas fotos vou levar para casa!

- Hahaha! Normal, nunca esteve aqui, não é?

- Nunca, deu para perceber, não? Veneza é realmente única! É tão bela!

- Concordo... moro aqui desde que nasci... e nunca perdi o encanto por essa cidade. Dizem que aqui as almas gêmeas se reecontram, minha mãe que dizia isso.

- Sério? Que bonito isso... você acredita nisso?

- Acredito. Talvez minha alma gêmea seja uma jovem bonita que tira fotos com a lente tampada, haha!

- Hahaha! Talvez minha alma gêmea seja um certo italiano intrometido... hahaha!

Ambos os barcos passavam devagar, em sentidos opostos. Annabelle e o italiano ficavam olhando um para o outro em curtos instantes. A jovem sorria e abaixava a cabeça, o rapaz sorria e olhava para o lado... depois voltavam a se olhar. Annebelle agora ficava distraída no gramado dos olhos do rapaz, e este olhava encantado para a jovem... ela nunca havia o visto na vida e nem ele, porém algo faziam ambos se apaixonarem um pelo outro ali mesmo. Talvez o que a mãe do jovem dizia fosse verdade, talvez fosse apenas atração da beleza, mas certamente era algo que unia aqueles dois. Ele apreciava o quão belo era o sorriso de Annabelle, imaginava a levando para um piquenique em um parque, a levando em um barco pelas ruas de Veneza, imaginava em como ele seria feliz vivendo ao lado da jovem. Ela imaginava uma vida ao lado do rapaz, casamento, filhos, talvez ele fosse o homem de sua vida... ou talvez apenas um amor de verão, com momentos inesquecíveis e felizes daquela viagem. 
Os barcos já se afastavam, Annabelle se quer sabia o nome do rapaz e nem ele o dela, com inúmeras maneiras de se comunicar hoje em dia, ambos se quer pediam o e-mail, telefone ou celular... apenas deixavam os barcos se afastarem... ela sorria para ele conforme ia ficando mais longe, o jovem acenava sorrindo para ela... talvez ela nunca mais voltaria a encontrá-lo... talvez ambos se reencontrariam em algum lugar... porém, a única coisa que era certa, é que por enquanto, era um amor passageiro.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Arte da Felicidade

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      A vida parecia ser miserável para Brian. Artista plástico, que não ganhava muito, seu salário mensal variava, não tinha uma renda fixa. A noite, caía nos bares do subúrbio da cidade... a bebida o consumia até desmaiar ou colocar para fora tudo o que havia bebido. Era uma vida sem rumo, sem nenhum objetivo, sem alma.
      Lembranças boas talvez fossem as únicas coisas boas que ainda lhe restava. 
      Estava Brian naquela tarde, dentro de seu apartamento alugado imundo cheio de fumaça do seu cigarro, pintando algo em uma tela. Haviam tintas já secas nas paredes, no chão, jornais velhos por todos os lados, garrafas de cerveja, vodka, vinho, pinga e inúmeras bebidas alcoólicas jogadas pela casa. Diferente das outras pinturas, o artista parecia caprichar mais naquela que estava pintando, ainda não dava para definir o que seria, pois haviam apenas rabiscos, porém rabiscos firmes e leves, e não pesados e sem forma como fazia nas outras pinturas. 
      Horas e horas se passavam, maços e mais maços de cigarro eram jogados vazios ao chão, garrafas e mais garrafas de whisky, vodka e cerveja eram consumidas, tintas e mais tintas eram usadas na pintura. Faltava pouco para Brian completar sua obra, mas parecia cansado, assim decidia descansar. Ele dava uma limpada meio mal feita no sofá que estava imundo de salgadinhos, cigarros e outras coisas e se deitava. 
      Areia, mar, brisa, sol, coqueiros... era uma praia deserta de ondas calmas, de temperatura agradável, o sol não era escaldante, era morno e acolhedor, como se fosse o sol calmo da manhã. Além do som das gaivotas, se escutava a melodia harmoniosa das ondas do mar, fazendo a vontade de fechar os olhos e escutá-las ser grande, porém o céu era um verdadeiro espetáculo, com as nuvens que possuíam diversas formas fazendo do céu uma bela obra prima.
      Já era tarde da noite, Brian acordava com uma dor de cabeça suportável, depois de ter tantas insuportáveis nessa vida... e se levantava indo para próximo da sua obra não terminada. Como se sua expressão de preguiça sumisse, o artista dava um sorriso leviano, nada demais, mas estava muito satisfeito com os resultados de sua obra até o momento, então assim decidia terminá-la. 
      Uma falta de ar começava a incomodá-lo. Coçava os olhos, parecia que a imagem estava ficando embaçada, um cansaço grande tomava conta de todo seu corpo, e mesmo assim Brian não parava de pintar. Minutos se passavam, e cada vez mais a dificuldade de terminar aquela pintura aumentava. Chegava um momento em que era difícil ficar em pé, e como se soubesse o que estava acontecendo, o pintor dava gargalhadas enquanto ia se abaixando até que ficasse deitado ao chão, estava calmo, apesar de estar morrendo. Brian estava feliz naquele momento, iria deixar sua vida miserável, que nunca significou nada, sua obra estava finalmente terminada, era seu sonho, era uma cena de uma praia. Porém não era uma imagem qualquer , quem quer que a olhasse, sentiria o sol morno na pele, o cheiro do mar, o som das ondas fazendo uma harmoniosa melodia, o som das gaivotas, iria apreciar o imenso céu azul... era apenas uma imagem, mas havia felicidade nela, parecia que Brian havia colocado ali, toda sua felicidade até não poder mais... e no leito de sua morte, a última coisa que viu, foi o lugar de seus sonhos.
      

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Meu fiel amigo

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Em dias chuvosos e depressivos, aqueles dias em que você fica se lamentando de algo recente que aconteceu na qual não pode voltar atrás, esses dias nos fazem querer ficar o dia inteiro em casa mergulhado no desânimo e tristeza. Mas eles sempre vêm e nos alegram fazendo com que fiquemos com vontade de sairmos correndo com eles na chuva, o fiel amigo, o fiel amigo cão.

Esse animal tão gracioso faz parte de nossas vidas e conforme o tempo, criou-se um intenso laço entre humano e cão. Um laço de amizade, amor, algo que apenas cão e dono são capazes de entender.
Há cães pequenos, grandes, gordos, rápidos, brincalhões, bravos, preguiçosos, calmos, trabalhadores, animados, medrosos, e uma infinidade de características, assim como as pessoas. Cada cachorro tem sua personalidade, suas manias e etc, isso faz desses seres encantadores, seres que são capazes de se tornarem tão próximos a nós quanto qualquer outro. Humano e cão é um maravilhoso exemplo de amizade entre espécies diferentes, uma amizade indescritível e verdadeira, talvez seja a amizade mais pura que exista para os humanos, pois, infelizmente, a amizade entre humanos mesmo, muitas vezes não é certamente uma amizade de verdade.
Um cão protege seu dono quando o mesmo se encontra em perigo, um cão alegra seu dono quando o mesmo se encontra desanimado, um cão respeita seu dono quando o mesmo quer ficar sozinho, um cão faz de tudo, a seu modo, para que seu dono se encontre satisfeito... mas e o dono? Bem, um dono oferece alimento a seu cão, um dono oferece uma boa casa a seu cão, um dono dá afeição a seu cão, um dono cuida de seu cão... e ambos dão amor um ao outro, seja lá qual for a maneira que cada um sinta ou expresse esse sentimento. Cão e dono, uma ligação diferente a cada cão e a cada dono.


Se você não tem um amigo cão, tá esperando o que? Há vários centros de adoção de animais, não só de cães, mas de vários animais espalhados nesse país, é só procurar. Pare para pensar um pouco, quantos cães nesse mundo estão passando o dia mundial deles na rua, sozinhos, doentes, maltratados,  sem mesmo ter algo para comer? É muito triste pensar nisso... é injusto, pois eles não conseguem pedir por alimento, não são capazes de se expressarem para que os outros entendam, não irão lhe pedir esmola para comprar ração, eles só ficam a espera da bondade das pessoas... que muitas vezes nem ligam para eles. Me entristece profundamente quando vejo um cão magro, doente, procurando por comida na rua... ele realmente não merecia aquela situação precária, aliás nenhum ser vivo merece viver de tal forma. 


Nesse dia tão especial, vamos fazer desses nossos amigos fiéis, amigos tão especiais quanto já são todos os dias. E você que não tem um desses amigos, adote, com certeza ele irá ser grato a vida inteira a você, e fará sua vida mais feliz com certeza. Parabéns a todos os cães do mundo e também aos seus donos, e que essa amizade tão verdadeira dure para sempre.




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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Existe sim!

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Imagine uma coisa. Imaginou? Mesmo que essa coisa não tenha aparecido na sua frente, não possua forma física, é algo imaterial, virtual ou seja lá o que for... ela existiu ou existe, concorda? 
Pois é. Qualquer coisa pode existir sem necessariamente estar no mundo em que vivemos, sem necessariamente estar em nossos pensamentos, sem necessariamente... alguma coisa que possa limitar essa existência. 
Um bicho peludo e verde. Seja lá qual foi a sua forma de ter imaginado isso, esse bicho existiu. Existiu na sua cabeça... mas se uma coisa está limitada a existir em alguma coisa... quais seriam essas outras coisas que fazem coisas existirem?[Como é que é?] Em outras palavras... quais outras formas de alguma coisa existir? Por exemplo... você imaginou o bicho peludo e verde a seu modo, mas sem ser na imaginação e nem na sua cabeça, qual outra forma dele existir? Virtualmente talvez... ou quem sabe alguma forma na qual nós, meros humanos, somos limitados a compreender. De qualquer maneira... as coisas existem, mesmo as impossíveis. 
O impossível... o impossível só é possível na realidade. Porque na sua cabeça o impossível se torna possível... ou aquilo que ainda seja impossível na sua cabeça, pode ser possível em algum outro lugar ou coisa. E não há outra palavra para indicarmos algo na qual não conseguimos descrever além da palavra 'coisa'.
Enfim, não fique triste só porque as coisas que você acreditava existir, não existam... elas existem sim, nem que seja só pra você.


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sábado, 11 de setembro de 2010

Inesperado

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As pessoas podem fazer coisas inesperadas.


"Nunca tinha tempo... nunca tinha tempo. Parecia que o mais importante era qualquer outra coisa sem ser eu... parecia que os doces momentos que passamos juntos já haviam sido apagados... ainda me lembro da vez em que fomos naquele festival... da vez em que fomos pescar... da vez em que todos foram ao cinema... mas agora... já não existem mais... parece que tudo o que poderíamos ter feito juntos, já fizemos. Bons momentos aqueles que ainda se importava comigo, momentos que ainda agradava lhe a minha companhia. Há pessoas que acreditam que a vida é feita de momentos, e não do esforço para viver... e eu sou uma delas."


        Era o último parágrafo do diário de seu pai. Lágrimas escorriam de seus olhos cheios de arrependimentos e lembranças... havia percebido na crueldade que havia feito com aquele que mais queria sua felicidade, que mais queria seu bem estar, aquele que mais o amava. Jason fechava o diário devagar enquanto lágrimas não paravam de cair sobre o mesmo, ele estava se punindo por dentro por não ter feito mais do que fez pelo seu pai que fez tanto por ele, dava socos em si mesmo no peito, movia a cabeça negativamente enquanto caía sobre o mar de lágrimas. Sua mulher o observava da porta, queria ir confortá-lo, mas aquele momento não pertencia a mais ninguém além do próprio Jason.
        Sentado sobre a velha cama de seu pai naquela velha casa aconchegante na qual cresceu e viveu até seus 18 anos, Jason, já mais calmo, ficava ali de olhos fechados, sentindo a temperatura morna e acolhedora daquela casa, sentindo suas lembranças de moleque. Sua mulher estava no corredor arrumando os caixotes que carregavam alguns enfeites daquela casa, parecia uma mudança, ela apenas parava um momento, e ficava o observando, abaixava a cabeça e continuava a arrumar.
        "Porque? Como eu pude fazer isso? Não percebi o quanto machuquei meu pai? Será que ainda posso voltar atrás?" - Jason se perguntava.
        Em um ato inesperado, Jason se levantava e batia a mão na porta do quarto fazendo sua mulher se assustar e olhar para ele, o homem de meia idade tinha um olhar esperançoso, parecia que poderia consertar um grande erro do passado e trazer a felicidade novamente, trazer as boas lembranças de volta para serem lembradas de forma que merecem ser lembradas, lembradas de forma feliz, compartilhadas com todos... com todos. Corria as pressas, sua mulher questionava, queria entender o que estava acontecendo, o porque da pressa, Jason não dizia nada, apenas pegava a chave do carro e falava para sua mulher entrar no mesmo pois teria de ir para um lugar.
        Em alta velocidade dirigia, ele parecia não se importar com nada além de chegar ao local o mais rápido possível, sua mulher começava a reconhecer o caminho e parecia começar a entender o que seu marido iria fazer, e olhava para ele surpresa, mas dava um sorriso. Não demorava muito. Estacionavam o carro naquela rua calma, em frente a aquele lugar. Ambos saíam do carro e entravam de mãos dadas no local.
        Uma mulher bondosa os guiava pelos corredores do lugar, os levando até o quarto número 13, ela o abria e dizia para ficarem a vontade e se afastava. Jason estava um pouco nervoso, sua mulher iria esperá-lo ali da porta, apenas apertava seus ombros dando-o a coragem de entrar e assim o fazia.
        "Quem está aí? Espere... esse jeito de andar... não pode ser verdade, não é? ... Jason?"
        "Sou eu sim... pai."
        Cego pela idade, o pai de Jason reconhecia seu filho depois de 15 anos sem vê-lo. Sua voz estava mais fraca, era difícil de andar, mas seu coração ainda era o mesmo, ele não conseguia evitar de deixar algumas lágrimas escorrer de seus olhos, não conseguia dizer mais nada, apenas sentia feliz por 'ver' seu filho mais uma vez, mesmo que ele fosse embora novamente.
        Se aproximava de seu pai o bastante para abraçá-lo com força. Um abraço forte não de força bruta, mas de força do amor, um abraço sincero que Jason e seu pai não sentiam a 15 anos um do outro. Aos choros Jason dizia: "Pai, me desculpe, pai! Não percebi o quanto fiz o senhor sofrer! Juro que não foi o que eu quis! Eu o coloquei aqui porq-" - seu pai o interrompia dando um carinho na cabeça de seu filho, e dizia de forma calma: "Eu sei que foi para meu bem estar... para que pessoas especializadas pudessem cuidar desse velho que só serve para dar trabalho aos outros... mas fico feliz que esteja aqui, não tem do que se desculpar... você é meu filho, fico feliz que tenha voltado antes de eu partir." - Jason então respondia: "Não diga isso! Vai demorar muito para o senhor partir! Então vamos, eu vim te buscar!" - Muito surpreso ficava aquele pai, apesar do bom tratamento das pessoas, o amor da família é insubstituível.
        A mulher de Jason não continha as lágrimas. Todos choravam, mas era de felicidade. Jason não se perdoava em ter colocado seu pai no asilo. Assim saíam do local... Jason, sua mulher... e seu pai, todos juntos de volta para casa.
        As pessoas podem fazer coisas inesperadas... realmente.


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domingo, 5 de setembro de 2010

Almoço de domingo

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Era uma vez um pai e uma mãe. Era uma vez um filho e uma filha. Era uma vez uma família. 

Uma família como qualquer outra. O pai trabalhava o dia todo fora de casa, a mãe trabalhava dentro de casa mesmo. O filho adolescente estudava de manhã e passava a tarde no colégio, a filha mais nova estudava apenas a tarde. Aos domingos costumavam sair para comer na hora do almoço em algum lugar diferente, e isso unia bastante a família. 
Naquele domingo, a mãe ajudava sua filha a terminar de se arrumar para aquele almoço, o pai esperava junto com o filho do lado de fora explicando para o mesmo sobre o carro, já que logo o filho aprenderia a dirigir. Todos estavam animados, pois adoravam esse momento. Um momento especial, um momento em que poucas vezes ficavam todos juntos. 
Talvez para o filho adolescente, aquilo já estava ficando chato pois seu maior interesse agora eram as garotas, para a filha mais nova o almoço de domingo era uma alegria, para a mãe era uma recompensa de seu trabalho durante toda a semana, e para o pai era uma oportunidade de estar junto daqueles que ele mais ama. 


Não era um restaurante requintado, era simples, mas a comida era muito boa. O filho adolescente havia comido dois pratos cheios de comida, normal para um garoto nessa fase; a filha pequena havia comido menos da metade de um prato do irmão, pois queria ir logo para a sobremesa; a mãe já estava satisfeita com o que havia comido e o pai, além de ter comido mais que o filho, mal esperava pela sobremesa também. 
Sorvete de chocolate branco com calda de chocolate normal, morangos, mel, confetes, etc... era uma sobremesa bem colorida a da filha mais nova, a mãe havia pedido uma papaya com cassis, o filho um petit gateau de chocolate, e o pai... simplesmente a mesma coisa que sua filha. Certamente o que apreciaram ali não foi a batata temperada da salada, nem a maminha com manteiga, nem o arroz com passas, nem o pintado na brasa, nem o sorvete com calda de chocolate, nem o petit gateau, nem nenhuma comida ali... o que realmente apreciaram foi a companhia um do outro.

Talvez hoje você não se importe de não ir junto com sua família para o almoço de domingo. Porém mais tarde talvez você se importe. Quando pouco a pouco perceber que nada é para sempre. 


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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os dez reais

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"Poxa! Estou morrendo de fome! E justo agora não tenho nada na carteira... só 50 centavos! Que droga... vou ficar sem almoçar... acho que aguento o trampo até as 6..."

Dizia intrigado o homem de 36 anos, alto, bem vestido, casado e muito bem sucedido na vida. Ele estava naquela rua movimentada do centro da cidade, era perto de seu escritório, era entre 1 e 1:30 da tarde, a hora em que todos os seus colegas e as pessoas que trabalham por ali, saíam para almoçar. Era um cara bem esquecido, e já estava um tanto endividado com seus colegas de tanto esquecer o dinheiro para o almoço e pedir para eles pagarem... e sempre esquecia de compensá-los. Alguns de seus colegas até diziam que pagariam para ele um almoço, mas ele sabia que iriam cobrar mais para frente, ou deduzia isso... o homem era de fato bem egoísta. 


Ele passava na frente do restaurante que sempre almoçava e dava um sorriso sem graça para seus colegas que estavam se sentando a uma mesa para almoçarem, e depois saía dali para andar um pouco pela cidade, já que até as 2 horas da tarde estaria livre. 
10 reais. Esse era o valor que ele pagava para almoçar. Se sentava em um banco em uma praça e começava a pensar na vida. 

"Só precisava de 10 reais... ai, que fome..."

Pensava ele. Ele tinha uma Hilux, um apartamento na cobertura de um bairro nobre, uma casa de campo, uma casa de praia, três TVs de LCD, um computador para cada membro de sua família, ou seja, 5, também tinha uma lancha, uma casa em um sítio que tem cavalos, vacas, lago, piscina... e uma infinidade de... "Pra que tudo isso mesmo?"... pensava. Talvez era o fruto de seu trabalho. Porém ele havia percebido que não havia usado nem metade de seus bens, e que eles não lhe faziam falta, pois não os usava. Ele ficava a rir de si mesmo, ao mesmo tempo que se sentia miserável por não ter 10 reais na carteira, se sentia poderoso por ter todas aquelas coisas. "Droga! Nessas horas tudo aquilo não serve pra nada!" Dizia em um tom de voz relativamente alto, e um tanto irritado. 
Um homem bem idoso passava por ali perto, andava devagar, parecia estar muito cansado, era vendedor de picolé, usava um boné velho, roupas surradas, tinha uma pochete velha no cinto e estava sorrindo para a netinha que o acompanhava durante o trabalho. Ela se divertia apertando a buzina a ar do carrinho de sorvete. 


Ele olhava para aquele avô e sua neta. E pensava no tão pouco que aquele avô fazia para que sua neta pudesse se divertir, e no exagero que ele fazia para que seus filhos sorrissem daquela maneira tão verdadeira. O dia estava frio, provavelmente aquele velhinho não havia vendido muita coisa. O homem se pôs a pensar novamente. A neta queria um algodão doce que uma mulher vendia naquela praça, o avô logo ia sorridente atender sua querida neta, e então abria a pochete. Um saquinho daquele algodão doce custava 1 real. O sorriso do velhinho se transformava em uma expressão triste, pois só tinha 50 centavos, tentava negociar, mas a mulher não aceitava. Sorria para sua neta fazendo um doce carinho na cabeça dela, que ficava um pouco chateada, mas dava um abraço no seu avô e dizia que poderia ser em uma próxima vez. 
O homem se levantava. Via no carrinho escrito: 'R$ 0,50 cada picolé, qualquer sabor'. Se aproximava do velhinho e perguntava animado:

"E aí? Que sabor de picolé o senhor tem aí?"

O velhinho olhava surpreso, pois o dia não estava muito agradável para se tomar um sorvete. Mas ele logo tratava de mostrar os sabores com um sorriso, o homem também sorria. Escolhia um de leite condensado, e entregava os 50 centavos que tinha na carteira para aquele velhinho, agradecia e ia embora. O vendedor de sorvetes por sua vez, ficava com um sorriso animado no rosto e dizia já comprando o algodão doce:"Olha só que sorte! Vai ganhar um algodão doce hoje!" Sua neta ficava com uma alegria contagiante no rosto. 
O homem dava uma rápida olhada para trás, apenas se sentia feliz ao ver a garotinha ganhar o algodão doce do avô. Ele simplesmente parava, e logo percebia que além de ter ajudado alguém, havia ganhado uma refeição... tudo bem que era um picolé... e o dia estava frio... mas já era o bastante para saciar um pouco a fome. Naquele momento os 50 centavos eram mais valiosos do que os 10 reais que tanto queria.




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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mundo de Kevin

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"Imagine um mundo de escuridão, onde você não vê nada além da cor preta em toda a sua volta; um mundo de silêncio, onde você não escuta seus passos, a sua voz, não escuta nada. O único jeito de 'ver' esse mundo é sentir, sentir o cheiro, o gosto, a temperatura, a forma e a consistência das coisas. Esse é o mundo de Kevin."
Eram quase 12:30 da tarde daquele sábado fresco e ensolarado. Era o primeiro dia daquelas férias de Kevin, ele estava cansado por ter trabalhado durante 6 meses todos os dias, até mesmo nos fins de semana. O rapaz de 26 anos era um sommelier, ganhava bem, tinha uma vida confortável ao lado de sua mãe em uma casa não muito longe da cidade, o lugar era bem arborizado, tinha uma grande área aberta com a grama muito bem cuidada, haviam alguns cavalos, cães, aves e também algumas cabras. Ele estava do lado de fora, deitado em uma rede que estava presa entre duas grandes árvores de seu jardim, seus olhos estavam fechados, porém não estava dormindo, apenas apreciava a brisa fresca e leve passar, sentia o leve calor do sol em seu rosto, e também o doce aroma das frutas e flores que cresciam no jardim. Logo Kevin sentia o cheiro delicioso da comida de sua mãe, que estava na cozinha preparando um belo almoço para ambos, ela estava o observando da janela, sorrindo enquanto colocava água na panela. O jovem sommelier engolia a saliva, pois estava faminto e aquele aroma fazia aumentar ainda mais o apetite, parecia ter frango, batatas, cebola, tomate seco, arroz temperado, e outras coisas que tinham um delicioso aroma apetitoso. 



Kevin sentia a mão quente de sua mãe tocá-lo carinhosamente nos ombros, ele abria os olhos e dava um sorriso, sua mãe retribuía dando um outro, e assim andavam para dentro de casa abraçados nos ombros. Dona Mariella era uma mulher de 56 anos, seus cabelos eram grisalhos, era rechonchuda, possuía as bochechas rosadas e uma pele pálida, uma mulher de meia idade que amava seu filho mais do que tudo, e que adorava preparar uma refeição para o mesmo. 
Ao entrar naquela casa sentia-se um clima de paz e tranqüilidade, Kevin estava muito feliz, e isso fazia sua mãe ficar feliz. Ambos sentavam-se à mesa para almoçarem, próximo havia uma porta de correr que dava para o quintal e churrasqueira da casa, e de dentro da cozinha podia-se ver aquele belíssimo jardim. O sol adentrava por aquela porta, Kevin sentia aquela temperatura agradável tocar suas mãos que estavam sobre a mesa, o cheiro das árvores, flores e frutos se espalhavam dentro da casa pela brisa morna que passava pelas janelas, não havia momento mais aconchegante e delicioso de ser apreciado do que aquele, era realmente um almoço perfeito. 


A cozinha estava limpa, todas as louças estavam lavadas, secas e guardadas, o que sobrou daquele almoço já fora guardado para que assim pudessem apreciar aquela deliciosa comida mais tarde na janta. O relógio marcava 3:30 da tarde daquele sábado, o sol estava um pouco mais forte, mas ainda assim agradável. Dona Mariella estava sentada a mesa na qual haviam almoçado folheando alguns documentos, ela usava seu antigo óculos para enxergá-los bem, e parecia anotar algumas coisas em um papel, eram arquivos e documentos do trabalho de Kevin. Ela o ajudava bastante, pois trabalhava com ele, ela que o levava para os clientes, ela ajudava na escolha dos vinhos, ela fazia a parte mais burocrática no trabalho do sommelier. Kevin certamente tinha uma mãe admirável. 
Mariella olhava o relógio e passava a mão carinhosamente no filho que estava deitado no sofá da sala tirando um cochilo para acordá-lo, tinham que ir na cidade fazer algumas compras. Não demoravam muito entravam no carro, Kevin parecia sonolento e preguiçoso, sua mãe que estava já no banco do motorista dava uma risada e bagunçava os cabelos castanhos do filho, como se dissesse para parar de ser tão preguiçoso, Kevin apenas sorria passando a mão em seus cabelos logo em seguida. 
A cidade era um lugar bem diferente, a energia que era projetada não era tão tranqüila igual em sua casa, o cheiro era diferente, parecia ser sujo, não se sentia a luz quente do sol naquele lugar devido aos prédios, podia sentir a presença de inúmeras pessoas ao seu redor caminhando, a cidade, para Kevin, era um lugar rude e triste. 


Por sorte havia uma vaga para estacionar o carro em meio aquela rua movimentada. Saíam do carro, dona Mariella como sempre, andava segurando seu filho, dessa vez ambos estavam com seus braços entrelaçados e assim enfrentavam a grande multidão. A jornada na cidade começava em um banco, dona Mariella pagava as contas e também sacava algum dinheiro; depois iam para um supermercado, compravam produtos de limpeza, alimentos, e várias outras coisas; assim iam para uma loja de sapatos, pois Kevin estava precisando de alguns novos, e Mariella ajudava-o a escolher, o rapaz gostava dos mais confortáveis sem se importar se eram bonitos ou feios; passavam em uma lanchonete para comerem alguma coisa pois estavam famintos e demorariam um certo tempo até a janta, Kevin não gostava da comida da cidade, o gosto e o aroma não tinham aquele toque de amor e carinho que ele sentia da comida de sua mãe, mas mesmo assim ele gostava de apreciar, gostava de conhecer novos sabores; o último lugar era a lavanderia, havia deixado no dia anterior cobertores, lençóis e edredons nos quais eram mais complicados dela lavar, assim os recolhia, Kevin carregava as compras mais pesadas daquele dia, sua mãe o segurava pelo braço e assim caminhavam para o carro.
Dona Mariella soltava por um breve momento seu filho para que pudesse pegar a chave do carro em sua bolsa, o rapaz não saía do lugar, apenas virava para trás pois havia sentido um cheiro agradável e doce passar, curioso dava uns dois passos na direção da fonte daquele cheiro, e sem perceber trombava com um homem que carregava caixas com conteúdo frágil. Dona Mariella escutava um barulho de vidros quebrando, e rapidamente olhava para o lado, via seu filho sentado ao chão e as compras para fora das sacolas, via um homem irritado reclamando e lamentando sobre a vidraçaria que ele carregava na caixa... o homem xingava Kevin de tudo quanto é nome, o empurrava bruscamente como se estivesse desafiando Kevin para uma briga, o rapaz parecia perdido da situação, tinha medo de ficar de pé, sabia que aquele homem o derrubaria de novo. Correndo, Mariella afastava o homem alterado de seu filho tentando acalmá-lo, e depois ajudava seu filho a se levantar, ela não dizia nada, apenas dava um abraço forte no mesmo e fazia um carinho em sua cabeça, e, visto que estava mais calmo, ela sorria, e depois olhava para o sujeito, que estava impaciente pois queria resolver aquela situação na qual ele achava que Kevin tinha culpa. De uma forma calma, Mariella dizia segurando no braço de seu filho olhando fixamente para o sujeito raivoso:

"Imagine um mundo de escuridão, onde você não vê nada além da cor preta em toda a sua volta; um mundo de silêncio, onde você não escuta seus passos, a sua voz, não escuta nada. O único jeito de 'ver' esse mundo é sentir, sentir o cheiro, o gosto, a temperatura, a forma e a consistência das coisas. Esse é o mundo de Kevin."

O homem ficava confuso, ria do que ela dizia, debochava dos dois, e aquela dedicada mãe completava:"Kevin é cego e surdo desde que nasceu, senhor, por favor, não fique irritado com ele." O sujeito ficava pasmo por uns instantes, e depois muito arrependido, ele pedia desculpas, e se abaixava pegando as coisas que haviam caído.
O doce aroma parecia se aproximar um pouco, Kevin virava o rosto a procura da fonte, ele não podia ver, mas era uma bela jovem de longos cabelos loiros naturais ondulados, aquela situação havia chamado a atenção de algumas pessoas, inclusive da graciosa moça do doce aroma que tanto agradou o olfato de Kevin. Algumas pessoas ajudavam Mariella e seu filho a colocarem as coisas no carro, por um momento Kevin sentiu aquele doce cheiro ficar bem ao seu lado, era a moça que o ajudava a entrar no carro, não sabia direito da situação pois era surda e muda e dava um 'tchau' para o rapaz sorrindo depois que fechava a porta, e como se soubesse, Kevin sorria acenando timidamente para ela. 
Aos poucos o doce aroma ia se distanciando, aos poucos seu sorriso ia sumindo, mas sabia que logo sentiria a temperatura morna de sua casa, o sol tocar sua pele, a brisa passar pelos seus cabelos, o cheiro das árvores e frutos, o gosto maravilhoso da comida caseira... e o amor doce, macio, morno, aconchegante... indescritível amor de sua querida mãe.



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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Madrugada fria aconchegante

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Parecia que ela se sentia sozinha ali naquele quarto escuro, com uma iluminação fraca e fria e levemente azulada. O silêncio era ensurdecedor, já que parecia que haviam retirado a audição de tão quieto que estava aquele quarto. Um leve som quebrava o silêncio, o som de pés descalços calçando seus chinelos, e logo depois o som dos mesmos se arrastando ao chão fazendo aquela velha senhora caminhar por aquele quarto. Cabelos curtos e totalmente brancos, bochechas levemente caídas, rugas em todo o rosto, olhos azuis cansados e idosos, mãos enrugadas e cheia de manchas de pele; a senhora Baker já havia vivido mais de 80 anos nesse mundo, e muita coisa já havia passado por ela. 


Viu todos os seus 4 filhos homens se formarem e constituírem uma famíla cada um, dando-lhe inúmeros netos e netas, viu seu marido adoecer e sorrir em seu último momento de vida, e agora vê, muito dificilmente, a luz da lua que deixa seu quarto azulado entrando pelos vãos de sua velha janela de madeira. Momento de paz parecia disseminar no coração da senhora Baker, que abria a janela, permitindo com que a intensa luz da lua adentrasse em seu quarto ainda mais. Sentia-se uma brisa gelada vinda de fora, a velha senhora se encolhia brevemente, fazendo a mesma vestir um casaquinho por cima de sua longa camisola. A lua parecia olhar para senhora Baker, que retribuía com um sorriso que fazia seus olhos quase se fecharem pela pele que caía sobre os mesmos, mas mesmo assim não deixava de ser um lindo sorriso. 


Sabia que não duraria muito tempo mais viva naquele mundo, talvez continuasse ali por mais uns 5 anos ou quem sabe 10 anos, porém, a senhora Baker não tinha medo da morte, não tinha receio de deixar aquele mundo, pois ela já estava satisfeita com a vida, não poderia estar mais feliz, para a senhora Elizabeth Baker, tudo o que poderia ter feito, o fez, e agora talvez pudesse descansar de tanto viver.


A noite parecia eterna, Elizabeth não queria que aquele momento passasse, poderia ficar ali, sentada em sua cadeira de balanço com o cobertor que tanto aqueceu ela e seu falecido marido em dias frios, com seus chinelos forrados com pano, apenas observando a lua que lhe fazia companhia. O sono foi voltando, conforme seus olhos iam se fechando, um sorriso formava em seu rosto antes de dormir completamente em saber que no dia seguinte, seus netos a visitariam e lhe trariam a alegria da vida mais uma vez, e mesmo que já esteja pronta para morrer, a senhora Baker aproveitava o máximo de cada momento de sua vida como se fosse o último.



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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Agonia

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          Um belo fim de tarde. O tom alaranjado do céu refletia nas pétalas de cerejeira fazendo as mesmas, que acompanhavam a brisa, parecerem luzes no ar. Era um domingo naquela cidade japonesa e ao som de uma triste melodia do piano, a luz do pôr do sol adentrava naquela casa, naquela solitária casa. 


          Os leves toques nas velhas teclas do piano, davam a harmonia perfeita na melodia. A luz que tocava o rosto daquela jovem, realçavam sua beleza oriental, mas também com leve toque ocidental. Mestiça de asiáticos e europeus, a jovem Ran sentia uma certa agonia naquela tarde de domingo, o dia estava acabando, o fim de semana estava acabando, e seu último dia naquela solitária casa no meio do bosque estava acabando. Pele clara, aveludada, levemente amarelada, contorno delicado do rosto, olhos claros cor lilás, cor de cabelo castanho claro, uma jovem de aparência rara e bela. 


          Os delicados dedos de sua mão, tocavam a tecla para a última nota da melodia, seus finos e delicados lábios esboçavam um leve sorriso e assim calmamente abaixava o tampo das teclas. Apoiada as mãos sobre o velho piano branco, Ran se levantava, seu simples e leve vestido branco movimentava-se conforme a bela moça caminhava. Passos serenos eram feitos pelos pés descalços que tocavam calmamente o chão até pararem próximo a grande janela.
          Ran Fournier, filha de pai francês e mãe japonesa, era uma jovem solitária, de poucos amigos que vivia da loja de instrumentos de seus falecidos pais, batalhadora e dedicada, largou os estudos depois da morte de sua avó paterna quando tinha 17 anos, e depois disso se dedicou inteiramente ao trabalho e a apreciação aos instrumentos musicais. Hoje aos 20, a jovem participa de concertos musicais da cidade tocando piano, que aprendera com seu pai, e trabalha na loja dedicando-se a aprender cada vez mais.
          Através da janela, Ran via as belas árvores de cerejeira se mexerem levemente pelo vento que passava, levando junto as pétalas de leve tom rosa, quase brancas, mas um pouco alaranjadas pela luz do sol, sua expressão era quase indiferente, porém percebia-se uma certa tristeza, uma certa agonia. Seria o último fim de tarde que apreciaria naquela janela, e ao mesmo tempo um novo começo estaria por vir.




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