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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Baú Trancado

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      Victoria vivia dentro de um baú. E este baú era trancado e ninguém tinha a chave para abri-lo, a chave estava perdida em algum lugar por aí. Porém Victoria não queria que abrissem seu baú, sua casa, seu mundo. Pois não estava pronta para sair. Apesar de estar aprisionada lá dentro, ela se sentia livre. Era livre para ser ela mesma em um mundo em que ela mesma criou. Ela tinha medo de sair, pois sabia que lá fora, teria que abrir mão de ser ela mesma, abrir mão de seu mundo, para poder sobreviver fora de seu baú.
      Em um belo dia, Victoria acordou com um som no que parecia serem chaves se mexendo. O som parecia cada vez mais próximo e Victoria logo se levantou da cama e encostou o ouvido na parede do baú para escutar melhor. De repente o som parou.

      - Ué? O que aconteceu? - Perguntou para si mesma, curiosa.

      E não demorou muito para o som voltar, e dessa vez estava bem próximo. Logo a fechadura começou a ser destrancada. Victoria olhou desesperadamente para tal fechadura, percebeu que alguém estava destrancando o baú. Ela olhou em volta à procura de alguma coisa que pudesse ajudá-la a evitar de abrirem sua casa, mas sem nada para ajudá-la, seu baú fora destrancado.
      Ela olhou em direção a abertura e viu uma sombra contra a luz, parecia ser um rapaz. Ele então simplesmente pulou para dentro do baú de Victória, e com um sorriso no rosto disse, olhando para ela:

      - Olá! Me chamo Tyler! Desculpe invadir de repente o seu baú... mas é que eu estava muito curioso para ver quem estava aqui dentro, já que eu tinha a chave.

      - Oh... er... oi Tyler, eu me chamo Victoria... - Disse a jovem moça, ainda um pouco perdida com a nova situação em que se encontrava.

      - Muito prazer, Victoria! E nossa, você é linda!

      Nesse momento Vitoria se sentiu lisonjeada e corou seu rosto. Mas ela tentou continuar a ser racional, e ainda séria, perguntou:

      - E como conseguiu a chave?

      - Bom... eu encontrei ela perdida por aí, e daí depois encontrei esse baú, daí fui tentar abrir e te encontrei!

      - Ah... - Disse Victoria, não acreditando muito naquilo.

      Tyler, simpático, sorriu e estendeu a mão para a jovem e disse:

      - Venha! Venha conhecer o mundo lá fora! Você vai adorar!

      Victoria sentiu medo, mas ao mesmo tempo sentiu uma grande curiosidade e vontade de explorar mundo a fora. Então ela respirou fundo e aceitou o convite, segurou na mão do garoto e juntos saíram do baú.
      Tyler mostrou um mundo totalmente diferente do mundo de Victoria. E as novidades a deixavam encantada, era um novo mundo, uma nova vida. E Tyler a deixava encantada também, por lhe mostrar aquele belo mundo.
      Passou bastante tempo do lado de fora, aprendendo sobre várias coisas, conhecendo pessoas novas, começou a ter novos gostos, etc. Tudo parecia ser maravilhoso, ao contrário do que ela pensava enquanto estava presa. Porém... esse mundo novo fez com que Victoria mudasse. Ela não sabia se tinha mudado para melhor ou pior. Ficou confusa, mas deixou isso pra lá e continuou a explorar o mundo novo.
      Quando Victoria voltou para sua casa, viu que não havia mais nada. Pois havia deixado seu baú destrancado. Destrancado por causa que Tyler estava com a chave. Haviam roubado suas coisas. Ela ficou desesperada, e logo pensou em voltar para a casa de Tyler para pedir ajuda.
      Porém durante o caminho, ela viu Tyler e seus amigos carregarem algumas coisas, levando para um carro. Eram as suas coisas. Victoria ficou chocada.
      "Tyler... por que?", questionou a inocente garota, com pequenas lágrimas escorrendo em seu rosto, enquanto via Tyler levar todas as suas coisas.
      Ela voltou correndo para o seu baú. No caminho tropeçou em algo jogado no chão. E ao ver o que era, ficou surpresa. Era sua chave. Victoria olhou chocada ao encontrá-la jogada ali de forma grotesca e quase quebrada, e a pegou rapidamente, entrou em sua casa e trancou-a novamente. A jovem se sentou no chão,  enquanto estava encostada na porta, segurou a chave com ambas as mãos e trouxe para perto do peito, e começou a chorar.
      Victoria então decidiu que a partir daquele momento, jamais destrancaria seu baú novamente. Jamais.

Se o baú for seu coração...

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Amor Indiferente de Romeo

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Você não consegue amar. Você não consegue me amar. Amar você é como se eu estivesse amando um vazio.

       Estas foram as últimas palavras de Claire para seu ex-namorado, Romeo. Ele lembrara muito bem de tais amargas palavras. "Eu não sei o que eu fiz de errado...", pensou o jovem homem, deitado em sua cama.
      Lembranças boas de seu relacionamento com Claire lhe vinham a mente. Para ele, tudo estava perfeito. Não conseguia achar algum sentido na repentina separação. Não conseguia entender o sentido daquelas cruéis palavras. "Claro que eu te amo, querida Claire... por que achas que não?", pensou intrigado.
      Romeo apenas se ajeitou em sua confortável cama e adormeceu. Mal sabia ele que sua amada estava prestes a suicidar.
      No topo do prédio onde Romeo morava, estava Claire aos prantos e na mais profunda dor, prestes a tirar a própria vida. Exagero? Talvez. Talvez fosse exagero se Claire realmente não tivesse amado um vazio.


      Claire conheceu Romeo em uma viagem turística na Índia. Ambos logo perceberam que tinham vários interesses em comum e também descobriram que moravam no mesmo bairro. Passaram a viagem juntos e Claire logo percebeu que havia encontrado o amor de sua vida. Romeo era respeitoso, charmoso, tinha um ar misterioso no qual fazia a jovem se sentir atraída para desvendar tais mistérios. Ele era bem humorado e era sempre muito cavalheiro com Claire. O rapaz também logo se interessou na bela moça e ambos começaram um relacionamento.
      Romeo raramente chamava Claire para sair, e isso fazia a jovem moça desejar cada vez mais seu amado. Quando saíam, Romeo quase não falava de sua vida, apenas escutava e perguntava a respeito de Claire, que adorava falar. Com o tempo, Claire foi percebendo tais atitudes de Romeo. Percebeu que quase sempre era ela que tinha que tomar a iniciativa para qualquer coisa entre os dois, como chamar pra ir no cinema, dar um abraço de ternura sem motivo aparente, entre outras coisas. E quanto mais ela tentava se aproximar e se adentrar na vida de Romeo, mais ele parecia se afastar e evitar Claire. "O que está acontecendo conosco?", questionou a jovem uma vez. "Do que está falando, querida?", perguntou o rapaz, confuso. "Você parece não se importar com a nossa relação...", disse Claire, triste. "Claro que me importo.", disse o jovem, sem perguntar algo como 'Porque?' para continuar a conversa, era como se ele não quisesse saber. "Está vendo! Parece que tanto faz estar comigo ou não!", disse Claire, revoltada. "Calma, querida... é que eu não quero que você dependa de mim e nem eu dependa de você...", respondeu de forma calma, sem se abalar com a frustração de sua namorada. "O que quer dizer com isso?", questionou Claire, confusa. "Não gosto de abrir mão da minha liberdade... só isso.", respondeu de forma indiferente. "Liberdade? Liberdade pra fazer o que?", questionou Claire. "Liberdade para ser eu mesmo.", disse Romeo. A conversa acabou ali.
      Os meses seguintes foram uma tortura para Claire. Passavam-se semanas sem se falarem, e quando retomavam a comunicação, era sempre a jovem moça que tinha que 'correr atrás'. Realmente para Romeo, não fazia a menor diferença estar ou não com Claire. Ele realmente gostava e se importava com ela, só que ao mesmo tempo era indiferente à aquilo. Claire chegou no limite. Era doloroso amar Romeo sendo que o mesmo não a correspondia, mesmo ele a amando de verdade. Ela chegou no limite e disse as ultimas palavras para seu amado. "Você não consegue amar. Você não consegue me amar. Amar você é como se eu estivesse amando um vazio."


      Claire deu seu ultimo suspiro e se jogou do prédio.
      No dia seguinte Romeo ficou sabendo da morte de sua amada. - Supostamente sua 'amada'. - Ele chorou em seu funeral. Chorou durante algumas semanas. Mas não se sentiu culpado. Para ele a culpa era dela mesma por não ter compreendido os seus sentimentos. - Sentimentos? Será que ele realmente os tinha? - Superou rápido e continuou com sua pacata vida.
      Romeo sentia que Claire era seu apoio e não o amor de sua vida, por isso continuava com a relação. Pois Romeo não sabia amar, e também não tinha interesse em querer aprender a amar.
      No fundo, Romeo, o jovem indiferente, apenas fora mal compreendido por Claire, a jovem normal.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Volte, e me encontre de novo.

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      Eu sentia um vazio no coração. Parecia que estava faltando algo em minha vida. E quando eu já desistia de ir em busca do que me faltava... o vazio era finalmente preenchido.
      Ela era a formosidade mais encantadora que poderia existir. Senti que ela era o que me faltava. Quando chegou em casa, era tão pequena, tímida, parecia ser frágil e despertava um grande desejo nas pessoas de quererem cuidar dela. Não tinha mais que um mês de vida. Invocada, ficava quieta, apenas observando o novo lar e sua nova família. Seus olhos castanhos e redondos eram graciosos e ao mesmo tempo marcantes, sua pelagem era em um leve tom champanhe e seus fios eram ondulados e macios. A princípio, antes mesmo dela chegar, queríamos nomeá-la de Suri. Porém ela já chegava com um nome. Jully.
      Seu primeiro dia em seu novo lar foi estranho. Todas aquelas pessoas, todos aqueles cômodos, todos aqueles brinquedos... tudo era diferente e novo. Talvez sentia um certo medo e insegurança, mas isso não a impedia de tentar se adaptar ao novo lugar. Com muita paciência, eu e minha irmã fomos tentando conquistar sua confiança. E no final do primeiro dia, ela já não ficava mais escondida debaixo do sofá. A noite, era levada para dormir junto conosco, em nossos colchões. Era muito pequena e todos achavam melhor nas primeiras noites, não deixá-la sozinha.
      Uma coisa quente e molhada podia se sentir naquele colchão na manhã seguinte. Mas que beleza... Jully havia feito xixi no meu colchão! Todos ficavam frustrados com aquilo, certamente teríamos que educar aquela pequenina. As refeições eram simples, simples demais, apenas leite e quatro grãos de ração, mas era indicação de sua antiga família. Porém isso não durava muito tempo, logo sua refeição foi sendo cada vez mais aprimorada e ficando cada vez mais saborosa. Afinal, ninguém gosta de comer algo sem sabor.
      Nos primeiros meses aquela pequenina foi revelando uma personalidade agitada, arisca, e dependendo até irritante. Não podia ver alguém andando, que já corria atrás para morder os sapatos da pessoa. Não podia receber um carinho na cabeça, que já queria morder a mão da pessoa. Não podia ver uma cadeira de madeira, que simplesmente a devorava. Não se sabe quanta coisa já foi destruída por aquela criaturinha. A almofada que usava como cama, simplesmente fora destroçada... as roupas para o frio, foram despedaçadas, nem mesmo servindo para ser pano de chão... os brinquedos de borracha pareciam brinquedos deformados, já que eram destruídos por ela... os móveis da casa estavam quase todos mordidos e riscados... Jully realmente era muito agitada em sua infância.
      Os anos foram passando, e Jully foi crescendo. Fugiu de casa, quase engravidou, aprendeu truques de adestramento, ficou com um berne morto nas costas durante 3 anos, só foi ser castrada aos 10 anos de idade, enfim, inúmeras coisas aconteceram. E a cada acontecimento, Jully se tornava cada vez mais sábia. Sua personalidade definitiva não era uma cachorra arisca, irritante, agitada e destruidora de móveis. E sim uma cachorra calma, paciente, obediente, carinhosa, boazinha, boba, folgada, preguiçosa, gulosa, enfim... Jully era Jully.
      Na manhã do dia 8 de outubro de 2011, aproximadamente as 7hr da manhã, Jully falecia em sua casa, ao lado da vovó que cuidou dela durante toda sua vida. Não se sabe o que estava sentindo no leito de sua morte, mas ao menos não estava sozinha quando deixou este mundo. Ninguém gostaria de morrer sozinho. Ao menos um adeus, todos gostariam de dar, e assim foi com Jully. Fico mais tranquila com isso.
      Sua morte fará com que sua vida fique apenas nas lembranças. Por isso espero encontrá-la novamente algum dia, quando ela renascer. Todos esperam nunca mais renascerem pois isso indica que já atingiram sua iluminação... porém eu quero que ela volte, que ela volte para este mundo, que renasça e volte para mim. Pode parecer um pouco egoísta... mas um vazio ficará em meu coração enquanto não encontrá-la novamente. Quero poder viver ao seu lado novamente, não quero perdê-la para sempre. Então por favor, volte, Jully. Volte e me encontre de novo.

Jully - 28/08/2000 - 08/10/2011

Estarei esperando.


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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Meu sorriso

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      O céu estava escuro ainda, eram 4 e meia da manhã. A neblina deixava o caminho todo com um ar de filme de terror... mas não me abalei e continuei andando. O caminho era de terra, haviam árvores beirando a estrada, e, apesar do cenário escuro, não tinha medo.
      Eu estava de pijama e usava um par de tênis... era para a caminhada. Levava meu cobertor junto, cobrindo meu corpo naquele frio. A estrada sempre era vazia, ninguém iria me ver de pijama de moleton azul bebê com estampa de nuvens com carinhas felizes... e com tênis e cobertor... ainda bem. O céu aos poucos começava a azular conforme eu seguia meu rumo, e já se escutava os primeiros cantos de alguns passarinhos.
     Depois de alguns minutos andando sem parar, eu me sentava em uma pedra que estava na beira da estrada, que a esse ponto já era asfaltada, e ficava a descansar um pouco antes de continuar. O céu estava lindo, em um tom alaranjado, e, apesar do frio que ainda prevalecia, as cores quentes do nascer do sol já me ajudavam a me sentir mais aquecida. O lugar onde eu estava era alto, a neblina estava começando a desaparecer, mas o horizonte nas partes mais baixas ainda estavam escondidas pelo lençol intocável. De qualquer forma, era relaxante observar e sentir a natureza acordando.


      Me levantei e continuei a caminhar. Queria ver o nascer do sol naquele lugar, então teria de me apressar para não perder a viagem. Mais minutos se passavam e finalmente consegui chegar no meu lugar...
      Havia uma cerca, que era onde se criavam cavalos, algumas árvores em volta e um banco. Me sentei no banco, atrás de uma árvore que era perto da cerca, e fiquei a apreciar o sol nascer. Pode parecer que é nada demais... mas me faz sorrir, e coisas que nos fazem sorrir pela sua verdadeira natureza, é algo que deve ser valorizado e admirado com todo seu amor.


      O que te faz sorrir... de verdade?

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domingo, 16 de janeiro de 2011

O filho

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Era uma vez um casal muito apaixonado que estava prestes a ter um bebê. A mamãe já estava no hospital, quase pronta para dar a luz, e o papai esperando ser chamado para ficar ao lado de sua amada e ver seu querido filho nascer. Não passava muito tempo, o papai entrava na sala e segurava na mão de sua amada, que parecia sofrer um pouco devido ao trabalho de parto. Poucas horas depois, o bebê finalmente nascia! Era um menino saudável e grande, que fazia seus pais sentirem as pessoas mais felizes desse mundo.
O bebê chegava ao seu novo lar, na qual viveria momentos felizes que ficariam marcados para sempre em sua vida. No começo foi difícil o casal se acostumar com a nova rotina, mas com muita paciência e amor, o papai e a mamãe conseguiam deixar seu bebê saudável e feliz. Trocavam as fraldas fedorentas do bebê com toda a alegria, ficavam acordados até tarde para fazer a criança adormecer, levavam o bebê de madrugada ao hospital quando algo de errado acontecia... tudo isso sem reclamar... simplesmente porque o amavam.
Poucos meses se passavam, e a mamãe já começava a alimentar seu bebê com papinha. Ainda era novinho para comer sozinho, mas com o amor e ajuda da mamãe, o bebê podia se alimentar para ficar cada vez mais forte.
Passava meses, e o bebê já estava querendo andar... seu papai o segurava pelas mãos com muito cuidado e com carinho, e o deixava andar com segurança. Assim que ficava a poucos centímetros de sua mãe, o papai soltava as mãozinhas, e o bebê saía andando até sua mamãe! Os dois pularam de alegria ao ver seu filhinho andar pela primeira vez! Que inesquecível.
Os banhos eram alegres, e o pequeno garotinho se sentia confortável e feliz, pois a mamãe o segurava com muito cuidado para não ir água nos seus olhos e nariz, e lavava cada parte de seu corpo muito bem lavada, pois a higiene era fundamental.
Com três aninhos, o bebê já era uma criança! Ele começava a aprender a ler, e seus pais o ajudavam a entender cada letra e cada palavra com muita paciência a amor.
Aos 5 começava a fazer arte, e deixava seus pais bravos, que fazia o garoto ficar triste, mas pelo menos aprendia a lição para se tornar uma boa pessoa.
A partir daí veio muitas lições... que seriam difíceis de lhe dar, mas que papai e mamãe jamais desistiriam, pois afinal, era o filho querido deles.


Aos 30 anos, já casado, com filhos... aquele bebê, se tornara um homem de sucesso, um homem honesto que sempre queria o bem dos outros. 
Seus pais se orgulhavam muito da pessoa que ele havia se tornado, e ele de seus pais por terem o tornado assim.
Os anos se passavam... e seus pais envelheciam. 
O bebê, que agora era aquele homem, cuidava de seus pais. Pois eles logo começavam a ter dificuldades para ler, e o bom filho os ajudava a entender cada letra e cada palavra com muita paciência e amor. Aos poucos foram ficando mais doentes e dependiam de seu filho para tomarem banho, que lavava cada parte de seus corpos muito bem lavadas, pois a higiene era fundamental. Andar estava ficando difícil, e o bom filho logo segurava nas mãos de seus pais com muito cuidado para ajudarem a andar com segurança. Cada vez mais era difícil de pegar um garfo e levar até a boca para se alimentar... mas o filho os ajudava a se alimentarem dando comida até a boca, e aos poucos foram ficando menos sólidas, eram como papinhas.
Passavam-se os anos, e a vida era cada vez mais difícil para aquele casal apaixonado... mas seu filho sempre estava ali... trocando fraldas fedorentas, ficando acordado até tarde esperando pegarem no sono, levando eles ao hospital quando algo de errado acontecia... simplesmente porque os amava... e era eternamente agradecido por terem feito de tudo por ele.


"Nossos pais cuidaram de nós com toda a paciência e amor do mundo, sem nunca desistir... e quando chegar a nossa vez de cuidarmos deles... que façamos o nosso melhor, com toda paciência e amor do mundo, assim como eles fizeram por nós." - por 'Filho'



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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Amor Passageiro

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Ela jamais havia viajado para tão longe de casa como daquela vez. Estava assustada, mas ao mesmo tempo animada, aquela imensa cidade italiana era realmente bela, com cidadãos educados, com uma arquitetura clássica que lembrava uma Europa romântica. Sempre gostou da literatura européia, da arte, música, e também a culinária, estava em Veneza, Itália, uma cidade belíssima sobre as águas. Sobre o barco que a levava para um passeio calmo pelas ruas aquáticas, Annabelle fotografava quase tudo o que via, até mesmo outros turistas, realmente estava animada. Um barco passava do lado, nele havia o remador e um jovem rapaz muito bonito, dava para perceber que era um italiano de sangue, seus olhos eram verdes, seus cabelos eram negros, lisos e curtos, tinha um nariz comprido e definido, um sorriso encantador, parecia um modelo. Era inevitável, até mesmo para homens, não olharem para aquele italiano, e Annabelle, de tão distraída, eufórica, que estava por ser sua primeira vez fazendo uma viagem como essa, se quer percebia o rapaz passar. Este que apreciava sua cidade fazendo um passeio naquele fim de semana, via a bela moça turista de olhos castanhos, cabelos ondulados loiros escuros, tirando fotos e mais fotos sem parar. Sem conseguir segurar, o jovem dava uma risada alta, fazendo Annabelle olhar para o mesmo e perceber que estava rindo dela, e sem ligar para a beleza do rapaz, ela perguntava:

- Que é? Tá rindo do que?

O rapaz se controlava uns instantes apenas para dizer:

- Nada... é que a câmera da senhorita está com a lente tampada...

Annabelle, sem acreditar muito no que o rapaz dizia, olhava para a lente, e nesse momento via que havia tirado dezenas de fotos pretas. Abaixava a cabeça, coçava a testa movendo a cabeça negativamente, como se não acreditasse que havia sido tão... besta... sem mais se lamentar, levantava a cabeça olhando para o italiano e começava a rir de si mesma:

- Eu não acredito nisso! Hahaha! Belas fotos vou levar para casa!

- Hahaha! Normal, nunca esteve aqui, não é?

- Nunca, deu para perceber, não? Veneza é realmente única! É tão bela!

- Concordo... moro aqui desde que nasci... e nunca perdi o encanto por essa cidade. Dizem que aqui as almas gêmeas se reecontram, minha mãe que dizia isso.

- Sério? Que bonito isso... você acredita nisso?

- Acredito. Talvez minha alma gêmea seja uma jovem bonita que tira fotos com a lente tampada, haha!

- Hahaha! Talvez minha alma gêmea seja um certo italiano intrometido... hahaha!

Ambos os barcos passavam devagar, em sentidos opostos. Annabelle e o italiano ficavam olhando um para o outro em curtos instantes. A jovem sorria e abaixava a cabeça, o rapaz sorria e olhava para o lado... depois voltavam a se olhar. Annebelle agora ficava distraída no gramado dos olhos do rapaz, e este olhava encantado para a jovem... ela nunca havia o visto na vida e nem ele, porém algo faziam ambos se apaixonarem um pelo outro ali mesmo. Talvez o que a mãe do jovem dizia fosse verdade, talvez fosse apenas atração da beleza, mas certamente era algo que unia aqueles dois. Ele apreciava o quão belo era o sorriso de Annabelle, imaginava a levando para um piquenique em um parque, a levando em um barco pelas ruas de Veneza, imaginava em como ele seria feliz vivendo ao lado da jovem. Ela imaginava uma vida ao lado do rapaz, casamento, filhos, talvez ele fosse o homem de sua vida... ou talvez apenas um amor de verão, com momentos inesquecíveis e felizes daquela viagem. 
Os barcos já se afastavam, Annabelle se quer sabia o nome do rapaz e nem ele o dela, com inúmeras maneiras de se comunicar hoje em dia, ambos se quer pediam o e-mail, telefone ou celular... apenas deixavam os barcos se afastarem... ela sorria para ele conforme ia ficando mais longe, o jovem acenava sorrindo para ela... talvez ela nunca mais voltaria a encontrá-lo... talvez ambos se reencontrariam em algum lugar... porém, a única coisa que era certa, é que por enquanto, era um amor passageiro.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Meu fiel amigo

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Em dias chuvosos e depressivos, aqueles dias em que você fica se lamentando de algo recente que aconteceu na qual não pode voltar atrás, esses dias nos fazem querer ficar o dia inteiro em casa mergulhado no desânimo e tristeza. Mas eles sempre vêm e nos alegram fazendo com que fiquemos com vontade de sairmos correndo com eles na chuva, o fiel amigo, o fiel amigo cão.

Esse animal tão gracioso faz parte de nossas vidas e conforme o tempo, criou-se um intenso laço entre humano e cão. Um laço de amizade, amor, algo que apenas cão e dono são capazes de entender.
Há cães pequenos, grandes, gordos, rápidos, brincalhões, bravos, preguiçosos, calmos, trabalhadores, animados, medrosos, e uma infinidade de características, assim como as pessoas. Cada cachorro tem sua personalidade, suas manias e etc, isso faz desses seres encantadores, seres que são capazes de se tornarem tão próximos a nós quanto qualquer outro. Humano e cão é um maravilhoso exemplo de amizade entre espécies diferentes, uma amizade indescritível e verdadeira, talvez seja a amizade mais pura que exista para os humanos, pois, infelizmente, a amizade entre humanos mesmo, muitas vezes não é certamente uma amizade de verdade.
Um cão protege seu dono quando o mesmo se encontra em perigo, um cão alegra seu dono quando o mesmo se encontra desanimado, um cão respeita seu dono quando o mesmo quer ficar sozinho, um cão faz de tudo, a seu modo, para que seu dono se encontre satisfeito... mas e o dono? Bem, um dono oferece alimento a seu cão, um dono oferece uma boa casa a seu cão, um dono dá afeição a seu cão, um dono cuida de seu cão... e ambos dão amor um ao outro, seja lá qual for a maneira que cada um sinta ou expresse esse sentimento. Cão e dono, uma ligação diferente a cada cão e a cada dono.


Se você não tem um amigo cão, tá esperando o que? Há vários centros de adoção de animais, não só de cães, mas de vários animais espalhados nesse país, é só procurar. Pare para pensar um pouco, quantos cães nesse mundo estão passando o dia mundial deles na rua, sozinhos, doentes, maltratados,  sem mesmo ter algo para comer? É muito triste pensar nisso... é injusto, pois eles não conseguem pedir por alimento, não são capazes de se expressarem para que os outros entendam, não irão lhe pedir esmola para comprar ração, eles só ficam a espera da bondade das pessoas... que muitas vezes nem ligam para eles. Me entristece profundamente quando vejo um cão magro, doente, procurando por comida na rua... ele realmente não merecia aquela situação precária, aliás nenhum ser vivo merece viver de tal forma. 


Nesse dia tão especial, vamos fazer desses nossos amigos fiéis, amigos tão especiais quanto já são todos os dias. E você que não tem um desses amigos, adote, com certeza ele irá ser grato a vida inteira a você, e fará sua vida mais feliz com certeza. Parabéns a todos os cães do mundo e também aos seus donos, e que essa amizade tão verdadeira dure para sempre.




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sábado, 11 de setembro de 2010

Inesperado

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As pessoas podem fazer coisas inesperadas.


"Nunca tinha tempo... nunca tinha tempo. Parecia que o mais importante era qualquer outra coisa sem ser eu... parecia que os doces momentos que passamos juntos já haviam sido apagados... ainda me lembro da vez em que fomos naquele festival... da vez em que fomos pescar... da vez em que todos foram ao cinema... mas agora... já não existem mais... parece que tudo o que poderíamos ter feito juntos, já fizemos. Bons momentos aqueles que ainda se importava comigo, momentos que ainda agradava lhe a minha companhia. Há pessoas que acreditam que a vida é feita de momentos, e não do esforço para viver... e eu sou uma delas."


        Era o último parágrafo do diário de seu pai. Lágrimas escorriam de seus olhos cheios de arrependimentos e lembranças... havia percebido na crueldade que havia feito com aquele que mais queria sua felicidade, que mais queria seu bem estar, aquele que mais o amava. Jason fechava o diário devagar enquanto lágrimas não paravam de cair sobre o mesmo, ele estava se punindo por dentro por não ter feito mais do que fez pelo seu pai que fez tanto por ele, dava socos em si mesmo no peito, movia a cabeça negativamente enquanto caía sobre o mar de lágrimas. Sua mulher o observava da porta, queria ir confortá-lo, mas aquele momento não pertencia a mais ninguém além do próprio Jason.
        Sentado sobre a velha cama de seu pai naquela velha casa aconchegante na qual cresceu e viveu até seus 18 anos, Jason, já mais calmo, ficava ali de olhos fechados, sentindo a temperatura morna e acolhedora daquela casa, sentindo suas lembranças de moleque. Sua mulher estava no corredor arrumando os caixotes que carregavam alguns enfeites daquela casa, parecia uma mudança, ela apenas parava um momento, e ficava o observando, abaixava a cabeça e continuava a arrumar.
        "Porque? Como eu pude fazer isso? Não percebi o quanto machuquei meu pai? Será que ainda posso voltar atrás?" - Jason se perguntava.
        Em um ato inesperado, Jason se levantava e batia a mão na porta do quarto fazendo sua mulher se assustar e olhar para ele, o homem de meia idade tinha um olhar esperançoso, parecia que poderia consertar um grande erro do passado e trazer a felicidade novamente, trazer as boas lembranças de volta para serem lembradas de forma que merecem ser lembradas, lembradas de forma feliz, compartilhadas com todos... com todos. Corria as pressas, sua mulher questionava, queria entender o que estava acontecendo, o porque da pressa, Jason não dizia nada, apenas pegava a chave do carro e falava para sua mulher entrar no mesmo pois teria de ir para um lugar.
        Em alta velocidade dirigia, ele parecia não se importar com nada além de chegar ao local o mais rápido possível, sua mulher começava a reconhecer o caminho e parecia começar a entender o que seu marido iria fazer, e olhava para ele surpresa, mas dava um sorriso. Não demorava muito. Estacionavam o carro naquela rua calma, em frente a aquele lugar. Ambos saíam do carro e entravam de mãos dadas no local.
        Uma mulher bondosa os guiava pelos corredores do lugar, os levando até o quarto número 13, ela o abria e dizia para ficarem a vontade e se afastava. Jason estava um pouco nervoso, sua mulher iria esperá-lo ali da porta, apenas apertava seus ombros dando-o a coragem de entrar e assim o fazia.
        "Quem está aí? Espere... esse jeito de andar... não pode ser verdade, não é? ... Jason?"
        "Sou eu sim... pai."
        Cego pela idade, o pai de Jason reconhecia seu filho depois de 15 anos sem vê-lo. Sua voz estava mais fraca, era difícil de andar, mas seu coração ainda era o mesmo, ele não conseguia evitar de deixar algumas lágrimas escorrer de seus olhos, não conseguia dizer mais nada, apenas sentia feliz por 'ver' seu filho mais uma vez, mesmo que ele fosse embora novamente.
        Se aproximava de seu pai o bastante para abraçá-lo com força. Um abraço forte não de força bruta, mas de força do amor, um abraço sincero que Jason e seu pai não sentiam a 15 anos um do outro. Aos choros Jason dizia: "Pai, me desculpe, pai! Não percebi o quanto fiz o senhor sofrer! Juro que não foi o que eu quis! Eu o coloquei aqui porq-" - seu pai o interrompia dando um carinho na cabeça de seu filho, e dizia de forma calma: "Eu sei que foi para meu bem estar... para que pessoas especializadas pudessem cuidar desse velho que só serve para dar trabalho aos outros... mas fico feliz que esteja aqui, não tem do que se desculpar... você é meu filho, fico feliz que tenha voltado antes de eu partir." - Jason então respondia: "Não diga isso! Vai demorar muito para o senhor partir! Então vamos, eu vim te buscar!" - Muito surpreso ficava aquele pai, apesar do bom tratamento das pessoas, o amor da família é insubstituível.
        A mulher de Jason não continha as lágrimas. Todos choravam, mas era de felicidade. Jason não se perdoava em ter colocado seu pai no asilo. Assim saíam do local... Jason, sua mulher... e seu pai, todos juntos de volta para casa.
        As pessoas podem fazer coisas inesperadas... realmente.


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domingo, 5 de setembro de 2010

Almoço de domingo

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Era uma vez um pai e uma mãe. Era uma vez um filho e uma filha. Era uma vez uma família. 

Uma família como qualquer outra. O pai trabalhava o dia todo fora de casa, a mãe trabalhava dentro de casa mesmo. O filho adolescente estudava de manhã e passava a tarde no colégio, a filha mais nova estudava apenas a tarde. Aos domingos costumavam sair para comer na hora do almoço em algum lugar diferente, e isso unia bastante a família. 
Naquele domingo, a mãe ajudava sua filha a terminar de se arrumar para aquele almoço, o pai esperava junto com o filho do lado de fora explicando para o mesmo sobre o carro, já que logo o filho aprenderia a dirigir. Todos estavam animados, pois adoravam esse momento. Um momento especial, um momento em que poucas vezes ficavam todos juntos. 
Talvez para o filho adolescente, aquilo já estava ficando chato pois seu maior interesse agora eram as garotas, para a filha mais nova o almoço de domingo era uma alegria, para a mãe era uma recompensa de seu trabalho durante toda a semana, e para o pai era uma oportunidade de estar junto daqueles que ele mais ama. 


Não era um restaurante requintado, era simples, mas a comida era muito boa. O filho adolescente havia comido dois pratos cheios de comida, normal para um garoto nessa fase; a filha pequena havia comido menos da metade de um prato do irmão, pois queria ir logo para a sobremesa; a mãe já estava satisfeita com o que havia comido e o pai, além de ter comido mais que o filho, mal esperava pela sobremesa também. 
Sorvete de chocolate branco com calda de chocolate normal, morangos, mel, confetes, etc... era uma sobremesa bem colorida a da filha mais nova, a mãe havia pedido uma papaya com cassis, o filho um petit gateau de chocolate, e o pai... simplesmente a mesma coisa que sua filha. Certamente o que apreciaram ali não foi a batata temperada da salada, nem a maminha com manteiga, nem o arroz com passas, nem o pintado na brasa, nem o sorvete com calda de chocolate, nem o petit gateau, nem nenhuma comida ali... o que realmente apreciaram foi a companhia um do outro.

Talvez hoje você não se importe de não ir junto com sua família para o almoço de domingo. Porém mais tarde talvez você se importe. Quando pouco a pouco perceber que nada é para sempre. 


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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mundo de Kevin

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"Imagine um mundo de escuridão, onde você não vê nada além da cor preta em toda a sua volta; um mundo de silêncio, onde você não escuta seus passos, a sua voz, não escuta nada. O único jeito de 'ver' esse mundo é sentir, sentir o cheiro, o gosto, a temperatura, a forma e a consistência das coisas. Esse é o mundo de Kevin."
Eram quase 12:30 da tarde daquele sábado fresco e ensolarado. Era o primeiro dia daquelas férias de Kevin, ele estava cansado por ter trabalhado durante 6 meses todos os dias, até mesmo nos fins de semana. O rapaz de 26 anos era um sommelier, ganhava bem, tinha uma vida confortável ao lado de sua mãe em uma casa não muito longe da cidade, o lugar era bem arborizado, tinha uma grande área aberta com a grama muito bem cuidada, haviam alguns cavalos, cães, aves e também algumas cabras. Ele estava do lado de fora, deitado em uma rede que estava presa entre duas grandes árvores de seu jardim, seus olhos estavam fechados, porém não estava dormindo, apenas apreciava a brisa fresca e leve passar, sentia o leve calor do sol em seu rosto, e também o doce aroma das frutas e flores que cresciam no jardim. Logo Kevin sentia o cheiro delicioso da comida de sua mãe, que estava na cozinha preparando um belo almoço para ambos, ela estava o observando da janela, sorrindo enquanto colocava água na panela. O jovem sommelier engolia a saliva, pois estava faminto e aquele aroma fazia aumentar ainda mais o apetite, parecia ter frango, batatas, cebola, tomate seco, arroz temperado, e outras coisas que tinham um delicioso aroma apetitoso. 



Kevin sentia a mão quente de sua mãe tocá-lo carinhosamente nos ombros, ele abria os olhos e dava um sorriso, sua mãe retribuía dando um outro, e assim andavam para dentro de casa abraçados nos ombros. Dona Mariella era uma mulher de 56 anos, seus cabelos eram grisalhos, era rechonchuda, possuía as bochechas rosadas e uma pele pálida, uma mulher de meia idade que amava seu filho mais do que tudo, e que adorava preparar uma refeição para o mesmo. 
Ao entrar naquela casa sentia-se um clima de paz e tranqüilidade, Kevin estava muito feliz, e isso fazia sua mãe ficar feliz. Ambos sentavam-se à mesa para almoçarem, próximo havia uma porta de correr que dava para o quintal e churrasqueira da casa, e de dentro da cozinha podia-se ver aquele belíssimo jardim. O sol adentrava por aquela porta, Kevin sentia aquela temperatura agradável tocar suas mãos que estavam sobre a mesa, o cheiro das árvores, flores e frutos se espalhavam dentro da casa pela brisa morna que passava pelas janelas, não havia momento mais aconchegante e delicioso de ser apreciado do que aquele, era realmente um almoço perfeito. 


A cozinha estava limpa, todas as louças estavam lavadas, secas e guardadas, o que sobrou daquele almoço já fora guardado para que assim pudessem apreciar aquela deliciosa comida mais tarde na janta. O relógio marcava 3:30 da tarde daquele sábado, o sol estava um pouco mais forte, mas ainda assim agradável. Dona Mariella estava sentada a mesa na qual haviam almoçado folheando alguns documentos, ela usava seu antigo óculos para enxergá-los bem, e parecia anotar algumas coisas em um papel, eram arquivos e documentos do trabalho de Kevin. Ela o ajudava bastante, pois trabalhava com ele, ela que o levava para os clientes, ela ajudava na escolha dos vinhos, ela fazia a parte mais burocrática no trabalho do sommelier. Kevin certamente tinha uma mãe admirável. 
Mariella olhava o relógio e passava a mão carinhosamente no filho que estava deitado no sofá da sala tirando um cochilo para acordá-lo, tinham que ir na cidade fazer algumas compras. Não demoravam muito entravam no carro, Kevin parecia sonolento e preguiçoso, sua mãe que estava já no banco do motorista dava uma risada e bagunçava os cabelos castanhos do filho, como se dissesse para parar de ser tão preguiçoso, Kevin apenas sorria passando a mão em seus cabelos logo em seguida. 
A cidade era um lugar bem diferente, a energia que era projetada não era tão tranqüila igual em sua casa, o cheiro era diferente, parecia ser sujo, não se sentia a luz quente do sol naquele lugar devido aos prédios, podia sentir a presença de inúmeras pessoas ao seu redor caminhando, a cidade, para Kevin, era um lugar rude e triste. 


Por sorte havia uma vaga para estacionar o carro em meio aquela rua movimentada. Saíam do carro, dona Mariella como sempre, andava segurando seu filho, dessa vez ambos estavam com seus braços entrelaçados e assim enfrentavam a grande multidão. A jornada na cidade começava em um banco, dona Mariella pagava as contas e também sacava algum dinheiro; depois iam para um supermercado, compravam produtos de limpeza, alimentos, e várias outras coisas; assim iam para uma loja de sapatos, pois Kevin estava precisando de alguns novos, e Mariella ajudava-o a escolher, o rapaz gostava dos mais confortáveis sem se importar se eram bonitos ou feios; passavam em uma lanchonete para comerem alguma coisa pois estavam famintos e demorariam um certo tempo até a janta, Kevin não gostava da comida da cidade, o gosto e o aroma não tinham aquele toque de amor e carinho que ele sentia da comida de sua mãe, mas mesmo assim ele gostava de apreciar, gostava de conhecer novos sabores; o último lugar era a lavanderia, havia deixado no dia anterior cobertores, lençóis e edredons nos quais eram mais complicados dela lavar, assim os recolhia, Kevin carregava as compras mais pesadas daquele dia, sua mãe o segurava pelo braço e assim caminhavam para o carro.
Dona Mariella soltava por um breve momento seu filho para que pudesse pegar a chave do carro em sua bolsa, o rapaz não saía do lugar, apenas virava para trás pois havia sentido um cheiro agradável e doce passar, curioso dava uns dois passos na direção da fonte daquele cheiro, e sem perceber trombava com um homem que carregava caixas com conteúdo frágil. Dona Mariella escutava um barulho de vidros quebrando, e rapidamente olhava para o lado, via seu filho sentado ao chão e as compras para fora das sacolas, via um homem irritado reclamando e lamentando sobre a vidraçaria que ele carregava na caixa... o homem xingava Kevin de tudo quanto é nome, o empurrava bruscamente como se estivesse desafiando Kevin para uma briga, o rapaz parecia perdido da situação, tinha medo de ficar de pé, sabia que aquele homem o derrubaria de novo. Correndo, Mariella afastava o homem alterado de seu filho tentando acalmá-lo, e depois ajudava seu filho a se levantar, ela não dizia nada, apenas dava um abraço forte no mesmo e fazia um carinho em sua cabeça, e, visto que estava mais calmo, ela sorria, e depois olhava para o sujeito, que estava impaciente pois queria resolver aquela situação na qual ele achava que Kevin tinha culpa. De uma forma calma, Mariella dizia segurando no braço de seu filho olhando fixamente para o sujeito raivoso:

"Imagine um mundo de escuridão, onde você não vê nada além da cor preta em toda a sua volta; um mundo de silêncio, onde você não escuta seus passos, a sua voz, não escuta nada. O único jeito de 'ver' esse mundo é sentir, sentir o cheiro, o gosto, a temperatura, a forma e a consistência das coisas. Esse é o mundo de Kevin."

O homem ficava confuso, ria do que ela dizia, debochava dos dois, e aquela dedicada mãe completava:"Kevin é cego e surdo desde que nasceu, senhor, por favor, não fique irritado com ele." O sujeito ficava pasmo por uns instantes, e depois muito arrependido, ele pedia desculpas, e se abaixava pegando as coisas que haviam caído.
O doce aroma parecia se aproximar um pouco, Kevin virava o rosto a procura da fonte, ele não podia ver, mas era uma bela jovem de longos cabelos loiros naturais ondulados, aquela situação havia chamado a atenção de algumas pessoas, inclusive da graciosa moça do doce aroma que tanto agradou o olfato de Kevin. Algumas pessoas ajudavam Mariella e seu filho a colocarem as coisas no carro, por um momento Kevin sentiu aquele doce cheiro ficar bem ao seu lado, era a moça que o ajudava a entrar no carro, não sabia direito da situação pois era surda e muda e dava um 'tchau' para o rapaz sorrindo depois que fechava a porta, e como se soubesse, Kevin sorria acenando timidamente para ela. 
Aos poucos o doce aroma ia se distanciando, aos poucos seu sorriso ia sumindo, mas sabia que logo sentiria a temperatura morna de sua casa, o sol tocar sua pele, a brisa passar pelos seus cabelos, o cheiro das árvores e frutos, o gosto maravilhoso da comida caseira... e o amor doce, macio, morno, aconchegante... indescritível amor de sua querida mãe.



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