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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Céu

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"Por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Dizia em voz alta e repetidas vezes aquele velho senhor que estava parado no meio daquela calçada. Algumas pessoas o olhavam achando estranho, outras paravam e ficavam o assistindo, outras ficavam a zombar do velho, e algumas se afastavam pensando que era um louco. Não sabia ao certo o que se passava na cabeça daquele senhor, mas quem parasse e prestasse atenção na sua pergunta e fizesse o que estava dizendo, certamente perceberia de que a vida que levava não era tão ruim assim. 
"Para muitos, a felicidade só é percebida quando vê que os outros estão em situações piores ou inferiores... ao invés de percebê-la assim... por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Dizia mais uma coisa e no fim repetia sua pergunta. Sempre em voz alta, para que todos que estivessem passando pudessem escutá-lo.
"Algumas pessoas acham que se tornam felizes através da infelicidade dos outros... mas isso jamais será a verdadeira felicidade... ao invés disso... por que não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você é realmente feliz?"
Aos poucos mais e mais pessoas se aglomeravam em volta daquele velho senhor, pois as pessoas estavam começando a se identificar com o que ele dizia, e queriam continuar a escutá-lo, pois de alguma forma tais palavras confortavam as pessoas e as faziam perceber que a felicidade estava dentro de cada uma delas.
"Todos querem encontrar a felicidade...e todos a encontram, mas nunca percebem, pois nesse mundo as coisas perdem o valor muito rápido... é uma pena. A única coisa a fazer é perceber que você é feliz..." 
O velho senhor parava e ficava olhando distraído para o céu azul, com lindas nuvens grandes perto das montanhas, fazendo parecer que eram ilhas voadoras. As pessoas ficavam confusas e então olhavam na mesma direção em que ele olhava, era algo que sempre esteve ali, mas que as pessoas jamais perceberam sua presença. Ficavam encantadas com o céu iluminado, sorrisos saíam de suas faces. Assim como o céu, a felicidade sempre esteve por perto... são as pessoas que não a percebem... então...
Porque não fechar os olhos nesse instante, e lembrar que você... é realmente feliz?



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sábado, 11 de setembro de 2010

Inesperado

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As pessoas podem fazer coisas inesperadas.


"Nunca tinha tempo... nunca tinha tempo. Parecia que o mais importante era qualquer outra coisa sem ser eu... parecia que os doces momentos que passamos juntos já haviam sido apagados... ainda me lembro da vez em que fomos naquele festival... da vez em que fomos pescar... da vez em que todos foram ao cinema... mas agora... já não existem mais... parece que tudo o que poderíamos ter feito juntos, já fizemos. Bons momentos aqueles que ainda se importava comigo, momentos que ainda agradava lhe a minha companhia. Há pessoas que acreditam que a vida é feita de momentos, e não do esforço para viver... e eu sou uma delas."


        Era o último parágrafo do diário de seu pai. Lágrimas escorriam de seus olhos cheios de arrependimentos e lembranças... havia percebido na crueldade que havia feito com aquele que mais queria sua felicidade, que mais queria seu bem estar, aquele que mais o amava. Jason fechava o diário devagar enquanto lágrimas não paravam de cair sobre o mesmo, ele estava se punindo por dentro por não ter feito mais do que fez pelo seu pai que fez tanto por ele, dava socos em si mesmo no peito, movia a cabeça negativamente enquanto caía sobre o mar de lágrimas. Sua mulher o observava da porta, queria ir confortá-lo, mas aquele momento não pertencia a mais ninguém além do próprio Jason.
        Sentado sobre a velha cama de seu pai naquela velha casa aconchegante na qual cresceu e viveu até seus 18 anos, Jason, já mais calmo, ficava ali de olhos fechados, sentindo a temperatura morna e acolhedora daquela casa, sentindo suas lembranças de moleque. Sua mulher estava no corredor arrumando os caixotes que carregavam alguns enfeites daquela casa, parecia uma mudança, ela apenas parava um momento, e ficava o observando, abaixava a cabeça e continuava a arrumar.
        "Porque? Como eu pude fazer isso? Não percebi o quanto machuquei meu pai? Será que ainda posso voltar atrás?" - Jason se perguntava.
        Em um ato inesperado, Jason se levantava e batia a mão na porta do quarto fazendo sua mulher se assustar e olhar para ele, o homem de meia idade tinha um olhar esperançoso, parecia que poderia consertar um grande erro do passado e trazer a felicidade novamente, trazer as boas lembranças de volta para serem lembradas de forma que merecem ser lembradas, lembradas de forma feliz, compartilhadas com todos... com todos. Corria as pressas, sua mulher questionava, queria entender o que estava acontecendo, o porque da pressa, Jason não dizia nada, apenas pegava a chave do carro e falava para sua mulher entrar no mesmo pois teria de ir para um lugar.
        Em alta velocidade dirigia, ele parecia não se importar com nada além de chegar ao local o mais rápido possível, sua mulher começava a reconhecer o caminho e parecia começar a entender o que seu marido iria fazer, e olhava para ele surpresa, mas dava um sorriso. Não demorava muito. Estacionavam o carro naquela rua calma, em frente a aquele lugar. Ambos saíam do carro e entravam de mãos dadas no local.
        Uma mulher bondosa os guiava pelos corredores do lugar, os levando até o quarto número 13, ela o abria e dizia para ficarem a vontade e se afastava. Jason estava um pouco nervoso, sua mulher iria esperá-lo ali da porta, apenas apertava seus ombros dando-o a coragem de entrar e assim o fazia.
        "Quem está aí? Espere... esse jeito de andar... não pode ser verdade, não é? ... Jason?"
        "Sou eu sim... pai."
        Cego pela idade, o pai de Jason reconhecia seu filho depois de 15 anos sem vê-lo. Sua voz estava mais fraca, era difícil de andar, mas seu coração ainda era o mesmo, ele não conseguia evitar de deixar algumas lágrimas escorrer de seus olhos, não conseguia dizer mais nada, apenas sentia feliz por 'ver' seu filho mais uma vez, mesmo que ele fosse embora novamente.
        Se aproximava de seu pai o bastante para abraçá-lo com força. Um abraço forte não de força bruta, mas de força do amor, um abraço sincero que Jason e seu pai não sentiam a 15 anos um do outro. Aos choros Jason dizia: "Pai, me desculpe, pai! Não percebi o quanto fiz o senhor sofrer! Juro que não foi o que eu quis! Eu o coloquei aqui porq-" - seu pai o interrompia dando um carinho na cabeça de seu filho, e dizia de forma calma: "Eu sei que foi para meu bem estar... para que pessoas especializadas pudessem cuidar desse velho que só serve para dar trabalho aos outros... mas fico feliz que esteja aqui, não tem do que se desculpar... você é meu filho, fico feliz que tenha voltado antes de eu partir." - Jason então respondia: "Não diga isso! Vai demorar muito para o senhor partir! Então vamos, eu vim te buscar!" - Muito surpreso ficava aquele pai, apesar do bom tratamento das pessoas, o amor da família é insubstituível.
        A mulher de Jason não continha as lágrimas. Todos choravam, mas era de felicidade. Jason não se perdoava em ter colocado seu pai no asilo. Assim saíam do local... Jason, sua mulher... e seu pai, todos juntos de volta para casa.
        As pessoas podem fazer coisas inesperadas... realmente.


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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os dez reais

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"Poxa! Estou morrendo de fome! E justo agora não tenho nada na carteira... só 50 centavos! Que droga... vou ficar sem almoçar... acho que aguento o trampo até as 6..."

Dizia intrigado o homem de 36 anos, alto, bem vestido, casado e muito bem sucedido na vida. Ele estava naquela rua movimentada do centro da cidade, era perto de seu escritório, era entre 1 e 1:30 da tarde, a hora em que todos os seus colegas e as pessoas que trabalham por ali, saíam para almoçar. Era um cara bem esquecido, e já estava um tanto endividado com seus colegas de tanto esquecer o dinheiro para o almoço e pedir para eles pagarem... e sempre esquecia de compensá-los. Alguns de seus colegas até diziam que pagariam para ele um almoço, mas ele sabia que iriam cobrar mais para frente, ou deduzia isso... o homem era de fato bem egoísta. 


Ele passava na frente do restaurante que sempre almoçava e dava um sorriso sem graça para seus colegas que estavam se sentando a uma mesa para almoçarem, e depois saía dali para andar um pouco pela cidade, já que até as 2 horas da tarde estaria livre. 
10 reais. Esse era o valor que ele pagava para almoçar. Se sentava em um banco em uma praça e começava a pensar na vida. 

"Só precisava de 10 reais... ai, que fome..."

Pensava ele. Ele tinha uma Hilux, um apartamento na cobertura de um bairro nobre, uma casa de campo, uma casa de praia, três TVs de LCD, um computador para cada membro de sua família, ou seja, 5, também tinha uma lancha, uma casa em um sítio que tem cavalos, vacas, lago, piscina... e uma infinidade de... "Pra que tudo isso mesmo?"... pensava. Talvez era o fruto de seu trabalho. Porém ele havia percebido que não havia usado nem metade de seus bens, e que eles não lhe faziam falta, pois não os usava. Ele ficava a rir de si mesmo, ao mesmo tempo que se sentia miserável por não ter 10 reais na carteira, se sentia poderoso por ter todas aquelas coisas. "Droga! Nessas horas tudo aquilo não serve pra nada!" Dizia em um tom de voz relativamente alto, e um tanto irritado. 
Um homem bem idoso passava por ali perto, andava devagar, parecia estar muito cansado, era vendedor de picolé, usava um boné velho, roupas surradas, tinha uma pochete velha no cinto e estava sorrindo para a netinha que o acompanhava durante o trabalho. Ela se divertia apertando a buzina a ar do carrinho de sorvete. 


Ele olhava para aquele avô e sua neta. E pensava no tão pouco que aquele avô fazia para que sua neta pudesse se divertir, e no exagero que ele fazia para que seus filhos sorrissem daquela maneira tão verdadeira. O dia estava frio, provavelmente aquele velhinho não havia vendido muita coisa. O homem se pôs a pensar novamente. A neta queria um algodão doce que uma mulher vendia naquela praça, o avô logo ia sorridente atender sua querida neta, e então abria a pochete. Um saquinho daquele algodão doce custava 1 real. O sorriso do velhinho se transformava em uma expressão triste, pois só tinha 50 centavos, tentava negociar, mas a mulher não aceitava. Sorria para sua neta fazendo um doce carinho na cabeça dela, que ficava um pouco chateada, mas dava um abraço no seu avô e dizia que poderia ser em uma próxima vez. 
O homem se levantava. Via no carrinho escrito: 'R$ 0,50 cada picolé, qualquer sabor'. Se aproximava do velhinho e perguntava animado:

"E aí? Que sabor de picolé o senhor tem aí?"

O velhinho olhava surpreso, pois o dia não estava muito agradável para se tomar um sorvete. Mas ele logo tratava de mostrar os sabores com um sorriso, o homem também sorria. Escolhia um de leite condensado, e entregava os 50 centavos que tinha na carteira para aquele velhinho, agradecia e ia embora. O vendedor de sorvetes por sua vez, ficava com um sorriso animado no rosto e dizia já comprando o algodão doce:"Olha só que sorte! Vai ganhar um algodão doce hoje!" Sua neta ficava com uma alegria contagiante no rosto. 
O homem dava uma rápida olhada para trás, apenas se sentia feliz ao ver a garotinha ganhar o algodão doce do avô. Ele simplesmente parava, e logo percebia que além de ter ajudado alguém, havia ganhado uma refeição... tudo bem que era um picolé... e o dia estava frio... mas já era o bastante para saciar um pouco a fome. Naquele momento os 50 centavos eram mais valiosos do que os 10 reais que tanto queria.




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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Madrugada fria aconchegante

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Parecia que ela se sentia sozinha ali naquele quarto escuro, com uma iluminação fraca e fria e levemente azulada. O silêncio era ensurdecedor, já que parecia que haviam retirado a audição de tão quieto que estava aquele quarto. Um leve som quebrava o silêncio, o som de pés descalços calçando seus chinelos, e logo depois o som dos mesmos se arrastando ao chão fazendo aquela velha senhora caminhar por aquele quarto. Cabelos curtos e totalmente brancos, bochechas levemente caídas, rugas em todo o rosto, olhos azuis cansados e idosos, mãos enrugadas e cheia de manchas de pele; a senhora Baker já havia vivido mais de 80 anos nesse mundo, e muita coisa já havia passado por ela. 


Viu todos os seus 4 filhos homens se formarem e constituírem uma famíla cada um, dando-lhe inúmeros netos e netas, viu seu marido adoecer e sorrir em seu último momento de vida, e agora vê, muito dificilmente, a luz da lua que deixa seu quarto azulado entrando pelos vãos de sua velha janela de madeira. Momento de paz parecia disseminar no coração da senhora Baker, que abria a janela, permitindo com que a intensa luz da lua adentrasse em seu quarto ainda mais. Sentia-se uma brisa gelada vinda de fora, a velha senhora se encolhia brevemente, fazendo a mesma vestir um casaquinho por cima de sua longa camisola. A lua parecia olhar para senhora Baker, que retribuía com um sorriso que fazia seus olhos quase se fecharem pela pele que caía sobre os mesmos, mas mesmo assim não deixava de ser um lindo sorriso. 


Sabia que não duraria muito tempo mais viva naquele mundo, talvez continuasse ali por mais uns 5 anos ou quem sabe 10 anos, porém, a senhora Baker não tinha medo da morte, não tinha receio de deixar aquele mundo, pois ela já estava satisfeita com a vida, não poderia estar mais feliz, para a senhora Elizabeth Baker, tudo o que poderia ter feito, o fez, e agora talvez pudesse descansar de tanto viver.


A noite parecia eterna, Elizabeth não queria que aquele momento passasse, poderia ficar ali, sentada em sua cadeira de balanço com o cobertor que tanto aqueceu ela e seu falecido marido em dias frios, com seus chinelos forrados com pano, apenas observando a lua que lhe fazia companhia. O sono foi voltando, conforme seus olhos iam se fechando, um sorriso formava em seu rosto antes de dormir completamente em saber que no dia seguinte, seus netos a visitariam e lhe trariam a alegria da vida mais uma vez, e mesmo que já esteja pronta para morrer, a senhora Baker aproveitava o máximo de cada momento de sua vida como se fosse o último.



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